I Encontro da Juventude Quilombola da Região Sudeste fortalece protagonismo dos jovens na defesa dos territórios

Realizado no Quilombo Lajeado, encontro reuniu jovens de quatro comunidades para discutir mudanças climáticas, direitos, cultura, ancestralidade e os desafios vivenciados nos territórios

Por Geíne Medrado

O I Encontro da Juventude Quilombola da Região Sudeste reuniu jovens das comunidades quilombolas Lajeado, Baião, Lajinha e São Joaquim, entre os dias 25 e 27 de setembro, na Escola Municipal Vó Camila, no Quilombo Lajeado, no município de Dianópolis-TO. O encontro foi marcado pela troca de saberes, pelo intercâmbio entre as comunidades e pelo fortalecimento das pautas da juventude quilombola.

Mobilizado pela própria juventude da região, o encontro criou um espaço de escuta e formação sobre os desafios enfrentados nos territórios e sobre o papel dos jovens na continuidade da luta pela defesa de direitos, pela preservação da memória e da ancestralidade e pelo fortalecimento da cultura e dos saberes quilombolas.

Entre os principais temas discutidos esteve a questão das mudanças climáticas e seus impactos sobre as comunidades. Os jovens compartilharam relatos sobre os efeitos do desmatamento, da mineração e de grandes empreendimentos que chegam aos territórios sob o discurso do desenvolvimento, mas que também provocam mudanças percebidas no cotidiano das comunidades.

Roda de conversa sobre diversas pautas com a juventude quilombola.
Foto: Geíne Medrado

Para Laelson Ribeiro de Souza, do Quilombo Baião e coordenador da Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Tocantins (COEQTO), a participação da juventude é fundamental para fortalecer a organização das comunidades.

“É muito importante para a COEQTO realizar esse encontro com a juventude quilombola da região Sudeste, para discutir pautas importantes, mas também ouvir dos jovens, que essas pautas também cabem no nosso meio. Nós, enquanto juventude, precisamos estar inseridos, fortalecer os nossos territórios e nossas comunidades, mas principalmente estar fortalecidos entre os povos. É um momento muito importante ter a juventude aqui, que é a nossa esperança e o nosso futuro dentro das comunidades.”

Mudanças climáticas e os impactos nos territórios

Durante as discussões sobre mudanças climáticas, os jovens relacionaram as transformações ambientais às atividades que vêm modificando os territórios e os modos de vida das comunidades.

Espaço de troca e aprendizado, com protagonismo da juventude quilombola da região Sudeste.
Foto: Geíne Medrado

Jéssica Albuquerque, do Quilombo Lajeado, relatou as mudanças percebidas no rio ao longo dos anos e os impactos sobre a comunidade.

“Quando a gente era criança, da minha casa, na época de enchente, a gente enxergava o rio. Ele vinha nesse período e ficava mais ou menos ali numa vazante, no lugar onde a gente fez a horta hoje. De 2008 para cá, depois da construção do projeto de irrigação em Porto Alegre, o rio nunca mais chegou à altura que chegava antes. Hoje, os impactos são sentidos pela comunidade, com a redução dos peixes e a seca do rio. E agora a mineração também começa a pegar água do rio. Nós ficamos com as consequências dos problemas, enquanto eles ficam com o resultado financeiro do que fazem”, relatou Jéssica Albuquerque, do Quilombo Lajeado. ”

O debate também destacou a importância das estratégias construídas pelas próprias comunidades para enfrentar os impactos ambientais e garantir a continuidade dos modos de vida quilombolas. Entre elas está a diversidade da produção nos territórios e a valorização de práticas tradicionais de cultivo.

“Se você for nas roças, dentro dos territórios quilombolas, vai encontrar arroz, feijão, milho, batata. Então, vai ter uma diversidade de produção dentro do espaço, que é a parte interessante que a gente tem na produção e, principalmente, comida saudável, sem uso de agrotóxicos”, destacou Laelson.

Liderança do quilombo Baião e coordenador da COEQTO, Laelson Ribeiro de Souza.
Foto: Geíne Medrado

Formação e troca de saberes

Além das mudanças climáticas, a formação abordou temas como ações afirmativas, políticas de cotas, pauta racial, o contexto da regularização territorial no Tocantins, saúde mental e física, tecnologias e comunicação estratégica. O encontro também contou com a participação dos coordenadores da COEQTO, Lourivaldo Kalunga e Cida Sousa. 

Para os participantes, o momento também foi uma oportunidade de conhecer as realidades de outras comunidades, fortalecer vínculos e ampliar a articulação entre os jovens da região.

“O encontro foi maravilhoso, com muitas trocas, muitos saberes e muito engajamento desses jovens. Eles deram a ideia para que esse evento acontecesse, e é algo maravilhoso porque estamos vendo o engajamento deles para entrar na luta”, destacou Maria Eduarda Crisóstomo, do Quilombo Baião.

Além da troca de saberes, a atividade permitiu o fortalecimento de vínculos entre a juventude da região. Foto: Geíne Medrado

Geísa Ribeiro, da comunidade São Joaquim, ressaltou a importância de conhecer as experiências de outros territórios.

“Eu achei muito importante porque é nesses espaços que a gente conhece as demandas de outras comunidades, até mesmo o dia a dia e a história de outras comunidades.”

Para Taiane Avelino, do Quilombo Lajinha, a formação também trouxe novos conhecimentos que podem ser compartilhados com outros jovens de sua comunidade.

“O encontro foi uma troca de saberes que me motivou muito. Achei muito interessante falar sobre as mudanças climáticas que estão acontecendo e foi muito divertido. É um conhecimento muito grande para levar para a minha comunidade e motivar os jovens a participar do próximo encontro.”

É do chão do território que a juventude constrói caminhos, ocupa espaços e fortalece sua luta.
Foto: Geíne Medrado

Ao final, os jovens avaliaram o encontro como um espaço de fortalecimento coletivo e de construção de novas possibilidades de participação da juventude na organização das comunidades. A expectativa é que a experiência contribua para a continuidade da mobilização e para que mais jovens assumam o protagonismo na defesa de seus territórios, direitos, cultura e ancestralidade.

O evento contou com o apoio da Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Tocantins (COEQTO), da Alternativas para a Pequena Agricultura no Tocantins (APA-TO) e do Instituto Clima e Sociedade (ICS), por meio do projeto “Planos de Adaptação Climática para Quilombos no Tocantins”.

Escola Vó Camila: memória e ancestralidade

O encontro foi realizado na Escola Municipal Vó Camila, no Quilombo Lajeado, espaço que também carrega parte da memória e da história da comunidade.

Vó Camila, matriarca do quilombo Lajeado. Foto: João Celino Gualberto.

A matriarca Camila teve papel importante no fortalecimento da ancestralidade quilombola e no incentivo à educação. Ela aconselhava os mais jovens a estudarem e construírem suas trajetórias profissionais sem esquecer suas origens.

Como homenagem ao seu legado e após um processo de luta da comunidade, a escola local, anteriormente denominada Escola Municipal Descoberto, passou a se chamar Escola Municipal Vó Camila.

A história das comunidades da região está ligada à trajetória de famílias vindas da Bahia, a partir de uma peregrinação que passou por Natividade. A continuidade desses territórios foi marcada pela atuação de cinco matriarcas — Flaviana, Martinha, Francisca, Guilhermina e Camila —, irmãs nascidas e criadas na região. 

É nesse território de memória, ancestralidade e resistência que a juventude quilombola da região Sudeste se reúne para fortalecer os vínculos entre as comunidades e construir, coletivamente, os próximos caminhos de sua luta.

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