Delegação tocantinense participou de atividades políticas, culturais e formativas, levando a força dos territórios quilombolas do estado para Brasília
A participação da delegação do Tocantins no III Encontro Nacional de Mulheres Quilombolas da CONAQ, realizado entre os dias 10 e 14 de junho, em Brasília (DF), foi marcada por momentos de fortalecimento político, troca de saberes, valorização da ancestralidade e reafirmação da luta pelos direitos dos povos quilombolas.
Representando comunidades de diversas regiões do estado, as mulheres quilombolas tocantinenses integraram debates, grupos de trabalho, atividades culturais e espaços de articulação nacional. Em cada atividade, levaram consigo a história, a resistência e o orgulho de seus territórios, contribuindo para a construção coletiva de propostas e estratégias para o fortalecimento das comunidades quilombolas em todo o país.
Nos momentos de convivência, nas rodas de conversa, nos Quitungos de Trabalho e nos espaços de partilha, a presença tocantinense foi marcada pelo acolhimento e pela construção de vínculos entre mulheres que compartilham desafios e sonhos semelhantes. Para muitas participantes, o encontro também foi repleto de experiências inéditas, desde a primeira viagem de avião até a oportunidade de acompanhar de perto momentos históricos para o movimento quilombola brasileiro.

Território Kalunga do Mimoso recebe títulos de domínio
Um dos momentos mais simbólicos do encontro aconteceu no dia 11 de junho, durante a cerimônia de entrega de títulos de domínio a comunidades quilombolas de diferentes regiões do país.
A solenidade contou com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, da primeira-dama Janja Lula da Silva e de ministras do Governo Federal. Ao todo, foram entregues 18 títulos de domínio para comunidades quilombolas.
Entre os territórios contemplados está o Quilombo Kalunga do Mimoso, localizado nos municípios de Arraias e Paranã, no Tocantins. A comunidade recebeu quatro títulos destinados a cerca de 250 famílias.
Representando o território, Lourivaldo dos Santos, liderança comunitária e coordenador da COEQTO, participou da cerimônia de entrega, considerada um marco na luta pela garantia dos direitos territoriais das comunidades quilombolas.
Feira de Saberes valoriza produção e autonomia das mulheres quilombolas
Outro destaque da programação foi a Feira de Saberes Ancestrais João Antônio Pereira, que reuniu mais de 40 expositoras de 24 estados brasileiros e representantes internacionais.
O espaço evidenciou a diversidade produtiva dos territórios quilombolas e fortaleceu iniciativas ligadas à agricultura familiar, agroecologia, bioeconomia e autonomia econômica das mulheres.

Representando o Tocantins, participaram Sueli Barros, da comunidade quilombola Ilha de São Vicente, em Araguatins, com a exposição de sabonetes artesanais produzidos a partir de plantas e ervas medicinais, e Gabriela Ribeiro, levando o artesanato produzido por mulheres dos territórios quilombolas do Jalapão.
Para Sueli, a participação na feira foi uma oportunidade de divulgar seu trabalho, compartilhar conhecimentos e fortalecer os laços com mulheres quilombolas de todo o Brasil.
“Estou muito feliz em participar deste evento em Brasília e representar minha comunidade. É muito gratificante compartilhar nosso trabalho e ver o reconhecimento das pessoas pelos produtos que produzimos com tanto cuidado e carinho”, afirmou.

Presença de Maju Coutinho emociona participantes
A jornalista Maju Coutinho também participou da programação do encontro, em um momento marcado pela emoção e pelo reconhecimento da importância da representatividade negra nos meios de comunicação.
Cida Sousa, coordenadora do Coletivo Nacional de Mulheres Quilombolas da CONAQ, destacou o significado da presença da jornalista.“Ter Maju conosco é um sonho. Este dia ficará guardado na memória. Estamos construindo, ao longo destes dias, quilombos cada vez melhores.”

Ao falar para as participantes, Maju ressaltou que sua presença era, sobretudo, um exercício de escuta e aprendizado.“Eu venho com papel de escuta, de aprendiz. Aprendo com o quilombo. Celebrar a existência quilombola é celebrar a vida, a alegria e a resistência.”
Durante a atividade, a jornalista foi homenageada e convidada a se tornar embaixadora nacional das mulheres quilombolas do Brasil.

Ancestralidade viva: homenagem a Fátima Barros
O III Encontro também foi marcado pela valorização da memória das lideranças quilombolas que já ancestralizaram.
Entre as homenageadas esteve Fátima Barros, liderança do Quilombo Ilha de São Vicente, cuja trajetória foi lembrada em diferentes espaços do evento. Sua fotografia integrou o banner do “Quitungo da Leitura”, reafirmando a importância de seu legado para a luta quilombola no Tocantins.
A coordenadora da COEQTO, Letícia Queiroz, destacou a emoção de ver a história de Fátima reconhecida nacionalmente.
“Essas homenagens nos lembram que nossa caminhada não começou agora. Estamos aqui graças à luta de quem veio antes de nós. Fátima dedicou sua vida à defesa do nosso território e do nosso povo, e ver sua memória presente neste encontro foi muito fortalecedor.”
No encerramento do evento, a entrega do banner às representantes da comunidade Ilha de São Vicente foi um dos momentos mais emocionantes para a delegação tocantinense.

Fortalecimento da luta coletiva
Para Miguelanes Crisóstomo, liderança do Quilombo Poço Dantas e coordenadora da Mulher na COEQTO, o encontro reafirmou a importância da organização coletiva das mulheres quilombolas.
“Foi um momento de troca e de confluências muito importante para a luta quilombola. Tenho certeza de que muitas mulheres sairão daqui fortalecidas, e o meu desejo é que cada uma retorne para seus quilombos com a certeza de que a luta é construída no coletivo.”
Quem também destacou a potência do encontro foi Dona Isabel Rodrigues, liderança do território quilombola Barra de Aroeira, em Santa Tereza do Tocantins. Participante desde a primeira edição do evento e uma das articuladoras da criação da COEQTO, ela considera esta edição a mais marcante.
“Esse encontro de mulheres foi o melhor de todos que já participei. A gente adquiriu mais experiência e percebeu que o sofrimento, os desafios e a luta das outras comunidades são os mesmos da nossa. A luta pelo território é uma luta coletiva.”

Um encontro que continua nos territórios
Ao longo dos cinco dias de programação, os 15 Quitungos de Trabalho construíram propostas relacionadas a temas como saúde, educação, juventude, envelhecimento, bioeconomia, titulação de territórios, participação política, enfrentamento às violências, mudanças climáticas, financiamento e direitos humanos.
As contribuições resultaram na elaboração da carta política final do encontro, entregue ao Estado brasileiro como expressão das demandas e propostas construídas pelas mulheres quilombolas de todo o país.
Para as participantes do Tocantins, o III Encontro Nacional de Mulheres Quilombolas da CONAQ deixa como legado o fortalecimento das lideranças, a ampliação das redes de solidariedade e a reafirmação da certeza de que a luta pelos territórios, pelos direitos e pela permanência com dignidade se fortalece no coletivo.
Mais do que uma participação em um evento nacional, a presença das mulheres quilombolas tocantinenses em Brasília reafirmou a força dos territórios do estado, a importância da organização comunitária e o protagonismo das mulheres na construção de caminhos para o presente e o futuro dos quilombos.

Texto por Geíne Medrado, Jéssica Albuquerque e Letícia Queiroz – (Comunicação COEQTO/CONAQ)



