A Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Tocantins (COEQTO) vem a público manifestar profundo repúdio e indignação diante do crime bárbaro que ceifou a vida de Mariana Melo Soares de Oliveira, mulher quilombola da comunidade Kalunga do Mimoso Tocantins.
Mariana, de 37 anos, autônoma e mãe, foi brutalmente atacada na madrugada do dia 11 de fevereiro, na cidade de Campos Belos–GO. Segundo testemunhas e relatos da comunidade, seu ex-companheiro, inconformado com o fim do relacionamento, invadiu sua residência e ateou álcool e fogo contra seu corpo. Sua filha caçula, de apenas 6 anos, presenciou a violência e tentou ajudar a mãe a conter as chamas. Mariana foi socorrida e permaneceu internada por quatro dias, mas não resistiu às graves queimaduras e veio a óbito. O autor do crime, Carlos Alberto, foi detido pela Polícia Civil de Campos Belos.
A comunidade Kalunga do Mimoso e a COEQTO estão em luto. Prestamos nossa solidariedade à família e aos amigos de Mariana e exigimos justiça.
Mariana é mais uma vítima do feminicídio, expressão da violência de gênero que atinge cotidianamente mulheres em todo o mundo. De acordo com dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, somente em 2025 o Brasil registrou cerca de 1.470 casos de feminicídio, uma média de quatro mulheres assassinadas por dia — um cenário alarmante que evidencia a urgência de políticas públicas eficazes de prevenção e proteção.
O assassinato de Mariana não se trata de um caso isolado. Para as mulheres quilombolas, essa violência se agrava pelo racismo estrutural, pela vulnerabilidade socioeconômica e pela histórica ausência do Estado em nossos territórios.
Em nota publicada no dia 12 de fevereiro, a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), ao se posicionar sobre o Pacto Nacional de Prevenção ao Feminicídio, coordenado pelo Ministério das Mulheres, destacou que qualquer política nacional de enfrentamento à violência contra as mulheres precisa considerar as especificidades territoriais, raciais e culturais das comunidades quilombolas, apontando a necessidade de escuta ativa e participação efetiva das mulheres quilombolas na construção e no monitoramento dessas ações.
Vale destacar que levantamento realizado pela CONAQ, entre 2008 e 2024, aponta 22 casos de homicídios de mulheres quilombolas defensoras de direitos. A maioria foi assassinada em contextos de violência doméstica e familiar; outras perderam a vida por exercer papéis de liderança em seus territórios. Em muitos casos, os crimes ocorreram dentro de suas próprias casas e na presença de seus filhos, como aconteceu com Mariana — uma violência que marca não apenas os corpos, mas também os territórios e as futuras gerações.
Diante disso, reafirmamos que o enfrentamento ao feminicídio exige compromisso institucional concreto, fortalecimento da rede de proteção, regularização e titulação dos territórios quilombolas e controle social efetivo das políticas públicas. É necessário garantir que as ações cheguem aos territórios, protejam vidas e assegurem às mulheres quilombolas o direito de viver com dignidade e segurança.
Que a memória de Mariana Melo Soares de Oliveira nos mobilize. Que sua morte não seja em vão e que a justiça seja feita. Que mais nenhuma mulher quilombola tenha sua vida interrompida pela violência.
Mariana presente!
Quando uma mulher quilombola tomba, o quilombo se levanta com ela!



